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segunda-feira, novembro 10, 2014

Já é tempo de falar (mesmo) de sexo

Acredito que em pleno sexo XXI, apesar de toda a liberação sexual que permeia nossa sociedade, o sexo ainda é tabu. Não digo que é tabu por não se falar de sexo. Fala-se, sim, e até demais. Qualquer criança com mais de dez anos – frequentemente menos –, sabe o que significam expressões como “transar” ou “fazer amor”, para não mencionar as chulas, tão presentes no vocabulário da grande maioria. Mas o fato dela saber não significa que foram os seus pais que ensinaram. Aliás, ainda é raro encontrar pais que conversam aberta e seriamente sobre sexo com seus filhos. Na verdade, ainda é difícil falar-se aberta e seriamente de sexo com qualquer pessoa. Ou seja: sexo continua sendo tabu pra muita gente.
O tabu revela-se muitas vezes na forma jocosa e descomprometida com que o tema é tratado. Via de regra, sexo é mencionado com deboche e cinismo, muito mais do que seriedade. Não digo a seriedade hipócrita que transforma sexo num santuário que se deve resguardar até o casamento. Mas a seriedade que se espera ao falar de um ato cujos resultados podem ser tão marcantes. Traumas psicológicos, doenças, bebês… são algumas das consequências do sexo!
Enfim, por ser tabu, sexo permanece um tema mal compreendido e, pior, mal vivido. Contradição de uma época em que se discute, como nunca, orientação sexual, igualdade entre homens e mulheres, métodos contraceptivos etc. Parece que não, mas no dia-a-dia, a ignorância ainda prepondera e se disfarça na forma de piadas, chistes e banalizações.
O sofrimento psicológico é uma das consequências da ignorância. Dramas relacionados à sexualidade são experimentados em segredo, por homens e mulheres. Do lado menos atraente das telas de cinema – a vida real –, centenas de mulheres queixam-se de não obter prazer no ato sexual (muitas nunca chegam ao orgasmo), enquanto grande parte dos homens sofrem de ejaculação precoce ou impotência. Boa parte disso deve-se ao fato de que o sexo, apesar de tão falado, continua inconscientemente associado a pecado, abjeção, indecência. Fala-se tanto em “comer”, “dar”, “trepar”, que parece ser o ato sexual algo puramente instintivo, haja vista o tipo de expressões a ele referentes, que fazem com que pareça algo degradante.
Ser comida por alguém, por exemplo, é uma expressão que coloca a mulher no mesmo patamar de um bife! Não me admira que algumas mulheres, diante de um homem, fiquem tensas ao ponto de não sentir prazer. Inconscientemente, por mais que o parceiro seja atencioso, estão reverberando em sua mente diversos registros reprovativos do ato. É como se dentro dela uma voz dissesse: “Isso é ridículo e vergonhoso!”
O homem, por sua vez, tem que ser uma máquina de fazer sexo, desprovida de sentimentos. Repetem-se histórias que fazem-no parecer sempre pronto para penetrar uma mulher, independentemente de suas inseguranças e anseios. Isso chega aos adolescentes, que estão começando a vida sexual, como uma cobrança. Não “funcionar” é anormal. E como ninguém quer ser anormal, muitos preferem a masturbação compulsiva ou o sexo sem compromisso, para driblar o risco de falhar na “hora H”. No futuro, tornam-se adultos dissociados que separam a pessoa amada da pessoa desejada.
Para uma vida sexual saudável, está mais que na hora de romper tabus. Reconhecer que a genitália humana não está desconectada das emoções e da experiência pessoal de cada um, faz parte da maturidade. A pessoa madura está inteira na relação, com o corpo e com a alma. Ela não procura no outro a sua metade, nem a sua válvula de escape. Ela procura parceria, sintonia, complementariedade. Para isso, precisa falar com o outro (nem que o outro seja inicialmente um psicoterapeuta), de quase tudo e, inclusive, de sexo.
Mas enquanto falar de sexo só for possível com deboche, nós não estaremos verdadeiramente falando de sexo! E enquanto não falarmos de sexo, o não falado permanecerá tabu, constituindo-se fonte de muita infelicidade… na cama e além dela.
Via Caroline Treigner do Tribuna do Ceará.