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sexta-feira, novembro 13, 2015

Mesmo em tempos difíceis, elas resistem - Blog Entre Ideias

Wescley Gomes - Jornalista e Blogueiro 
A nova edição do Mapa da Violência 2015: Homicídio de Mulheres no Brasil, divulgado na última segunda-feira, (09/11), pela Faculdade Latino-Americana de Estudos Sociais, revelou um dos problemas antigos do Brasil, mas que ele ainda insiste em não reconhecê-lo.
Em meios às últimas polêmicas em torno da violência contra a mulher, os dados do estudo revelaram um país imaturo, com raízes profundamente patriarcal e retroalimentada pelo machismo, além, de escancarar às chagas de uma sociedade que ainda não conseguiu superar as suas desigualdades, entre elas, a de gênero.
Segundo a pesquisa, em 2013, o total de 4.762 mulheres foram assassinadas no país, isso representa 13 homicídios femininos por dia, equivalente, a uma mulher morta a cada 1h50min. A estatística rendeu ao país o quinto lugar dentre 84 países onde mais se mata mulheres.
Outra face dessa realidade, revelada pela pesquisa, é a prática seletiva desse tipo de violência. Em 10 anos, o número de mulheres negras assassinadas cresceu 54%, já o índice de mortes de mulheres brancas diminuiu 9,8%. Resumindo: em um ano, morreram assassinadas 66,7% mais mulheres negras do que brancas.

Diante dessa sombria realidade, vale as indagações: O que representa para nós sermos o quinto país do mundo onde mais se matam mulheres? Será que ainda somos capazes de nos indignarmos ante a tamanha crueldade, ou, ao contrário, continuaremos indiferentes às estatísticas como se fosse uma realidade distante do “mundinho” que nós criamos? Até quando vamos aceitar que o ápice da violência contra a mulher seja pagar com sua própria vida? Até quando ficaremos imergidos no conservadorismo e/ou na boçalidade de entender que dialogar sobre esse tema é questão de ideologia de esquerda ou coisa de feminista?

É importante percebemos que ao passo que nos distanciamos de determinados assuntos, menor será nossa capacidade de enxergarmos as raízes do problema e traçarmos estratégias para reverter o quadro vigente. Isso, por sua vez, revela uma maior capacidade para distorcer o debate, como por exemplo, afirmar que uma mulher merece ser estuprada por estar vestida de tal forma.
Assim, a ignorância se revela como a gênese para a criminalização da vítima, por isso, faz-se necessário exorcizarmos todas e quaisquer tentativas de enquadrar à vítima a responsabilidade de seu sofrimento físico, psicológico ou sexual.
Portanto, debater a violência em todas as suas formas seja ela física à simbólica é uma atividade complexa que está para além da perspectiva punitiva. Ela perpassa pela educação, por meio do diálogo aberto nas escolas, nas comunidades, nas rodas de amigos e, acima de tudo, pelo trabalho de conscientização dos direitos e deveres de cada indivíduo, reafirmando o pleno exercício de cidadania.
De certo modo, é reconhecível que o avanço das políticas públicas voltadas para o tema, ganharam proporções significativas, desde a inserção do diálogo nas Instituições – mesmo que ainda de forma simples -, passando pelas esferas populares até o aperfeiçoamento das práticas punitivas, como a lei Maria da Penha, em vigor desde 2006 e a recente lei do feminicídio sancionada pela presidenta Dilma Rousseff, em março deste ano.
Todavia, ainda há um longo caminho a percorrer pela frente. Mesmo em tempos difíceis, elas resistem. A luta, apesar de antiga, se renova a cada vez que mulheres vão às ruas lutarem pela validação dos seus direitos, quando se posicionam como donas dos seus corpos, quando tangenciam o medo e denunciam a cada assédio sofrido, quando se revoltam contra o sistema que estereotipa e ditam seus padrões, quando não abrem mãos de seu direito de ir e vir, e, por fim, a cada vez que decididamente se posiciona a dar um fim às heranças de uma sociedade moldada pelas imposições do patriarcado.
Portanto, apesar dos avanços do conservadorismo e do fundamentalismo observados nos últimos dias, com suas bases na cultura do machismo, ainda é tempo de resistência. Mulheres assumem o papel de protagonistas, não permitindo que suas vozes sejam silenciadas e seus direitos furtados, mas, pelo contrário, tem feito ecoar nos mais diversos setores da sociedade o seu brado de libertação e conquista.
Texto: Wescley Gomes / Crédito da foto: Divulgação