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terça-feira, maio 09, 2017

Nota da redação tira vaga na universidade para menino fenômeno do Enem

O estudante de escola pública João Vitor dos Santos, que foi notícia nacionalmente após excelente resultado na prova de múltipla escolha do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2014, não conseguiu vaga na Universidade Federal do Ceará (UFC). A informação foi confirmada pela direção da escola estadual Governador Adauto Bezerra, em Fortaleza.

Mesmo sendo estudante do 2º ano do Ensino Médio, João Vitor conseguiu acertar 172 das 180 questões, o equivalente a 95,5% do total da prova. Como comparativo, o menino ultrapassou os 164 acertos da estudante mineira Mariana Drummond, que conquistou o primeiro lugar no exame em 2013. Apesar do resultado, o jovem de 16 anos não atingiu a meta exigida para cursar Ciências Biológicas na UFC.

“A nota da Redação foi muito baixa. Ele conseguiu vaga para estudar em Alagoas, mas não quis ir para lá”, conta o diretor da escola, Otacílio Bessa. João Vitor já havia informado que o desempenho na prova não seria tão bom, por considerar a avaliação a mais difícil. “Ele sabia que seria difícil, mesmo assim ficou meio depressivo quando viu o resultado”, confidencia.

João Vitor sempre estudou em escolas públicas e revelou, em entrevista na época, que sua estratégia de estudo foi se adaptar à leitura, ler livros extensos e alguns com linguagem rebuscada. Sua ficha da biblioteca na escola contém mais de 40 exemplares lidos. Desde o anúncio de seu resultado, ele preferiu não falar mais com a imprensa.

Morador do Bairro Vila União e o quarto de cinco irmãos, João Vitor agora cursa o 3º ano do Ensino Médio, ainda sonha em viajar para o Reino Unido pelo programa Ciências Sem Fronteiras e fazer especialização em bioquímica ou biologia molecular, relata Otacílio. O destino ainda não teve ponto final. E João Vitor pretende escrevê-lo com centenas de exclamações. “Nós acreditamos nele”, finaliza o diretor.

Redação no Enem
A prova de redação do Enem 2014 teve como tema “Publicidade infantil em questão no Brasil”. A correção é feita por duas pessoas, de forma independente. Se houver discrepância entre as notas dos corretores por mais de 100 pontos, a redação vai para um terceiro corretor. A nota máxima da prova é de 1.000 pontos. A direção da escola Adauto Bezerra preferiu não divulgar a pontuação do estudante.

Segundo Myrson Lima, professor de curso de Redação em Fortaleza, a redação no Enem é atípica, diferente da avaliação nos vestibulares tradicionais. “O texto tem de ser dissertativo-argumentativo. O estudante tem que formular uma tese e argumentar em defesa dessa tese, provando que ela é verdadeira e defensável. Além de oferecer uma proposta cidadã, uma contribuição”.

O professor cita como exemplo o tema Publicidade Infantil. Nesse caso, o aluno deve convencer o leitor da sua tese, podendo sugerir que a prática seja controlada por fazer mal à criança. “Aí está a diferença da Redação no Enem. Ela pressupõe conhecimento prévio do assunto. O aluno tem que mostrar esse preparo, possuir um banco de ideias antes de começar a escrever”, avalia. Myrson alerta ainda para a necessidade de conexão entre os parágrafos. “Não adianta escrever cinco microtextos autônomos sobre publicidade infantil. Um parágrafo tem que ser complementação do outro”.

O problema maior, de acordo com o professor, é o fato de a tradição brasileira ser a oral, e não a escrita. “Tem gente que fala bem demais; mas, quando pedem para escrever, é um ‘Deus nos acuda’. A escola tem que ter estrutura de revisores, de corretores, para desenvolver a habilidade de escrita do aluno”, conclui.


TBN CEARÁ